Diálogo sobre tudo
“Pobre, quase indigente, Kiríllov que, aliás, não reparava na própria pobreza, orgulhava-se evidentemente das suas lindas armas compradas sem dúvida a custo de grandes sacrifícios.
- Continua nas mesmas disposições? Perguntou Stavróguin depois de curto silencio e não sem certa hesitação.
- Sim, respondeu Kiríllov que, pelo tom do visitante (Stavróguin), compreendera imediatamente do que se tratava. E pôs-se a arrumar as armas.
- E quando? Indagou Stavróguin depois dum silêncio, com maior circunspeção ainda.
Depois de guardar a caixa e o estojo na mala, Kiríllov retomara seu lugar.
- Isso não depende de mim, como você sabe; quando me mandarem, balbuciou ele, como se a pergunta o constrangesse um pouco; e entretanto, estava visivelmente pronto a responder às perguntas que se seguissem. Fixava em Stavróguin os seus olhos pretos sem brilho, e aquele olhar calmo, meigo, benévolo.
Houve longo silêncio.
- Claro que compreendo isso – o suicídio – falou Stavróguin como num devaneio; seu rosto se enchera de sombras. – Tenho pensado muito nisso. Mas então me ocorria uma idéia nova: se a gente cometesse um crime, ou qualquer ação vergonhosa, uma vilania especialmente covarde, e... ridícula, uma coisa de que os homens se recordassem durante séculos e que mil anos depois ainda lhes provocasse repulsa... E de repente este pensamento: “uma bala na cabeça e nada mais existe”. Que importam então os homens e a sua bala, não é verdade?
- E você chama a isso uma idéia nova? perguntou Kiríllov depois de um momento de reflexão.
- Não... não digo que seja nova, mas quando me apareceu senti-a como nova.
- Você “sentiu” a idéia? Insistiu Kiríllov. Está bem. Há assim inumeros pensamentos que sempre existiram e de repente aparecem como novos. É exato. Vejo agora muitas coisas como da primeira vez.
- Admitamos que você tenha vivido na Lua, interrompeu Stavróguin sem ouvir e continuando a desenvolver sua idéia. Lá realizara uma dessas ações sórdidas e ridículas. E dado isso, você sabe perfeitamente que lá na Lua estarão a zombar do seu nome, que o cobrirão de lama durante séculos, eternamente, enquanto a Lua durar. Mas acontece que você está na Terra, e é daqui que olha para a Lua: que lhe importam todas as sordícies que cometeu por lá, que lhe importa que os habitantes da Lua escarrem sobre o seu nome durante séculos, não é verdade?
- Não sei, respondeu Kiríllov. Nunca estive na Lua, acrescentou sem a menor intenção irônica, mas unicamente para estabelecer um fato.
- De quem é aquele menino? (Stavróguin, referindo-se a uma criança que brincava na casa de Kiríllov).
- Da sogra da velha; não, da nora da velha... pouco importa. Chegou aqui a três dias, essa nora. Está doente, de cama. O menino chora muito de noite. Dor de barriga. A mãe está dormindo. A velha o traz pra cá. E eu jogo a bola. É uma bola de Hamburgo. Comprei-a em Hamburgo para jogar com ela: é um bom exercício a fim de fortalecer as costas. É uma meninazinha.
- Gosta de crianças?
- Sim, respondeu Kiríllov, em tom, aliás, muito indiferente.
- Por consequencia, ama também a vida?
- Sim, amo a vida. Por quê?
- Mas está resolvido a estourar os miolos.
- E quem tem isso? Que ligação há? A vida é uma coisa, a morte é outra. A vida existe, a morte não existe.
- Então acredita agora na vida futura, eterna?
- Não na vida futura e eterna, mas na vida eterna aqui mesmo. A gente chega a instantes em que a vida pára de chofre e o presente se transforma na eternidade.
- E espera chegar a esse instante?
- Espero.
- Não creio que isso seja possível na nossa época, observou Stavróguin, também sem traço nenhum de ironia. Falava lentamente, com ar absorto. – No Apocalipse, o Anjo jura que não haverá mais o tempo.
- Eu sei. É exato. E é dito de maneira clara, precisa. Quando todo homem houver alcançado a felicidade, o tempo não existirá mais, por que não será mais necessário.
- E para onde irá ele?
- Para lugar nenhum. O tempo não é um objeto, é uma idéia que se extinguirá.
- Isso tudo são velhos lugares-comuns filosóficos, sempre os mesmos, desde o começo dos séculos, murmurou Stavróguin com uma espécie de desdenhosa compaixão.
- Sim, sempre os mesmos, desde o começo dos séculos, e jamais haverá outros! Exclamou Kiríllov, cujos olhos se acenderam de súbito; parecia que aquela idéia já era uma garantia de vitória.
- Você parece que é feliz, muito feliz, Kiríllov.
- Sim, felicíssimo, respondeu Kiríllov, como se dissesse palavras banais.
- Entretanto, ainda há pouco tempo, estava de mau-humor, irritado contra Lipútin...
- Hum... agora já não o estou. Então, eu ainda não sabia que era feliz, já viu uma folha, uma folha de árvore?
- Claro.
- Vi uma, recentemente, amarelada, ainda com um pouco de verde, e os bordos levemente desfeitos. O vento a tangia. Quando eu tinha dez anos, durante o inverno, fechava os olhos e ficava a pensar numa folha verde, brilhante, com suas nervuras, debaixo do sol. Abria os olhos, e não acreditava na realidade. O que vira era belo demais. E de novo fechava os olhos.
- É uma alegoria?
- Não... por quê? Não é uma alegoria. Refiro-me a uma folha, simplesmente. Uma folha é uma coisa bela. Tudo é belo.
- Tudo?
- Tudo! O homem é infeliz por que não sabe que é feliz. Unicamente por isso. Tudo está nisso; tudo, tudo. Aquele que o descobrir imediatamente será feliz. A nora vai morrer, a criança há de morrer e tudo está bem. Descobri isso de repente.
- E se se morre de fome, se a gente magoa uma menina, se a gente a desonra, também está bem?
- Sim. E se alguém quebra a cabeça de quem desonrou a menina, está bem igualmente. E, se não a quebra, ótimo, também. Tudo está bem, tudo. Se eles soubessem que são felizes seriam felizes; mas enquanto não souberem que são felizes, não o serão. É essa a idéia toda, a idéia inteira, e não há outra.
- Quando foi que descobriu que era feliz?
- Na semana passada, terça-feira, não, quarta-feira, por que já era noite.
- Em que ocasião?
- Não me lembro. Eu andava dum lado para o outro, no quarto... que importa! Parei o relógio: eram duas horas e trinta e cinco.
- Como sinal de que o tempo deveria parar?
Kiríllov não respondeu.
- Eles não são bons, continuou depois, por que não sabem que são bons. Quando o souberem, não mais violarão a menina. É mister que o saibam, e logo todos se tornarão bons, até o último.
- Pois você, que já o sabe - é bom?
- Sim, sou bom.
- Quanto a isso, estou de acordo, murmurou Stavróguin com a cara sombria.
- Aquele que ensinar aos homens que todos são bons terminará a história do mundo.
- Aquele que o ensinou foi crucificado.
- Ele há de vir, e o seu nome será o Deus-homem.
- O Homem-Deus?
- O Deus-homem, e nisso estará a diferença.
- Terá sido você, por acaso, que acendeu a lamparina diante do ícone?
- Sim, fui eu.
- Então acredita, agora?
- A velha gosta que a lamparina... e hoje não teve tempo... balbuciou Kiríllov.
- E você, ainda não reza?
- Rezo sempre. Olhe essa aranha que sobe pela parede! Olho para ela e fico-lhe grato por estar ali.
Seus olhos de novo brilharam, fitando em Stavróguin um olhar altivo e inflexível. Stavróguin, sombrio, olhava-o com uma espécie de repulsa, mas sem a menor ironia.
- Aposto que na primeira vez em que eu vier aqui você acreditará em Deus, disse ele erguendo-se e apanhando o chapéu.
- Por que?
- Se você soubesse que acreditava em Deus, respondeu com um sorriso Stavróguin, - acreditaria em Deus; mas como não sabe ainda que acredita, não acredita.
- Não é isso absolutamente, replicou Kiríllov depois de um momento de reflexão. Pôs às avessas a minha idéia. Fez uma pilhéria de salão. Lembre-se, Stavróguin, o que já foi pra mim.
- Adeus, Kiríllov.
(Esse diálogo foi retirado do livro Os Demônios, de Dostoiévski)
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